segunda-feira, 18 de maio de 2009

A Réplica e a Tréplica

Recebi uns comentários no post anterior que eu acho que fazem necessário que eu responda, explicando-me onde talvez não tenha sido claro e expondo o meu ponto de vista sobre algumas das coisas que ele falou. Vou respondendo conforme as questões aparecem. Em vermelho, o comentário dele. Em azul, eu.

Primeiro, a questão do mochilão eu acho bastante interessante, entendo que você queira viajar com certo conforto e não o condeno por isso, porém o fato de existirem mochileiros é pela experiência e o aprendizado que pode-se ter vivenciando diversas culturas na pele. Isso, sem comprá-la em uma loja ou vivenciá-la num lugar virtual como hotel ou restaurante. Porém, apesar de pensar assim, concordo que exista certo modismo de se fazer estas viagens pelo simples fato de um dia Che Guevara ter feito o mesmo, mas ainda assim não condeno estas pessoas.
Eu acho que não é preciso jogar uma mochila nas costas e sair por aí pedindo carona e dormir em albergues para vivenciar "diversas culturas na pele". Não entendo a necessidade de se evitar um hotel para isto, se, na minha opinião, você não vivencia uma cultura enquanto dorme. Acredito, também, que não há o que se aprender quando se priva deliberadamente de algum conforto ou item que você julga necessário - sabendo que quando voltar para casa, terá tudo isso de novo - exceto, talvez, que se aprendar a dar valor àquilo que tem. Mas para isso, um blackout é mais fácil e, talvez, mais didático ainda.

Segundo, quanto a questão das fotografias da miséria. Concordo que existe um abuso da imagem da pobreza e não vou repetir argumentos que você usou no texto, mas existem trabalhos sérios de fotógrafos que trabalham com a questão da miséria e da fome por um propósito maior. Eles têm um objetivo, o de chamar atenção para estas pessoas que sofrem em inúmeros lugares do mundo, muitos sem comida, lugar para morar, sem as condições mínimas de subsistência. Só para citar um fotografo que faça o que eu estou defendendo, procure por Sebastião Salgado. Se você realmente não é “insensível a pobreza” deveria entender que para se sensibilizar com a pobreza deve-se primeiro conhecê-la.
Eu não disse que não exista boa intenção por trás disso tudo. Só disse que os resultados que surtem são mínimos - exceto para o fotógrafo, que alcança fama e dinheiro. Ele pode muito bem estar fazendo isto com a intenção de melhorar a vida das pessoas que está fotografando, mas a única vida que consegue melhorar, geralmente, é a própria. Outra coisa, é possível conhecer a pobreza simplesmente botando o pé pra fora de casa. Aliás, acho mais importante se preocupar com os problemas do seu bairro, cidade, país do que problemas distantes. Problemas que, aliás, são bem mais difícies de resolver. Eu acredito que se cada um procurasse resolver os seus problemas e os que estão a sua volta - e não tentar abraçar o mundo e resolver todos os males da humanidade - o mundo já estaria bem melhor.

Próximo ponto, este bem rápido, Reinaldo Azevedo não é nome para tratar disso tudo. O cara defende o direito de se ter preconceitos, além de inúmeras outras coisas as quais são absurdas.
Eu acompanho o blog do Reinaldo Azevedo há pelo menos 3 anos e nunca vi qualquer defesa ao "direito de se ter preconceitos" nos textos dele. Me mostre um - só um - texto em que ele defende isso. E não vale trechos, porque é muito fácil mudar o sentido de uma frase simplesmente tirando-a do se contexto.

Falta de capitalismo na América-Latina, isto é balela. O capitalismo teve sua primeira fase no Mercantilismo, onde o acumulo de riquezas se deva pela troca de mercadorias, ou seja, o comércio. Assim países europeus saíram mundo a fora para buscar mercados consumidores e produtos para vender. Aqui no Brasil, você deve saber disto, portugueses exploraram nossas riquezas e nada investiram em nosso país. Esta exploração foi feita com mão-de-obra escrava em um primeiro momento e depois através de mãos de trabalhadores. Nesse momento o capitalismo não estava instalado no Brasil e em quase lugar nenhum da América Latina, porém eram explorados com o objetivo de acumulo de capital, explorados pelo capitalismo em seu formato mercantil. Eu poderia continuar o resgate histórico, mas acho que não é o objetivo. 
O capitalismo existe na América Latina, ainda com seu papel de países subdesenvolvidos, onde não muda muito para a questão das colônias, pois em geral produz-se aqui a matéria-prima para outros países. A dinâmica continua muito parecida, a riqueza aqui produzida pouco reverte-se para os latino americanos, ela em geral vai para multi-nacionais que levam esta riqueza para investimentos para outros locais.
(...)
Pra não me alongar muito na questão do capitalismo, te faço uma pergunta, o que você entende por capitalismo em sua plenitude?
Quando você disse que, quando o Brasil (e a América Latina) era colônia, não existia capitalismo por aqui. E agora você diz que pouca coisa mudou, que podemos continuar a nos considerar colônias... Entendeu onde eu quero chegar?

Não se trata de quem não esta na miséria deva se sentir culpado pela pobreza, seja ela no local que for, mas apenas como você mesmo sitou, se sensibilize com estas questões e faça alguma coisa para mudar este sistema cruel, onde poucos têm muito e muitos tem pouco. Sabe quantos brasileiros tem acesso ao ensino superior? Um pouco mais de 3%. Você acha isto justo?
Você sabe o que aconteceria se uma maior parte dos brasileiros tivessem curso universitário? Teríamos lixeiros, garis, vendedores, empregados domésticos (não querendo desmerecer estas profissões) com diploma universitário. Uma universalização da universidade (gostei disso!) não geraria igualdade nenhuma. Aliás, só pra tomar um exemplo, na Alemanha - famosa pelas políticas de bem-estar social - esta porcentagem é menor ainda, cerca de 2,6%.

Depois disso, você falou na questão do mérito de sua família te dar melhores condições e as contrapôs as cotas. Porém, se fosse uma questão de mérito (falo aqui do vestibular) todos sairiam de condições iguais e teria o direito a vaga aquele que a conquistasse por seu mérito. Mas como pode alguém que tem condições melhores de estudo e vida competir com outra pessoa que saiu de uma família onde o pai trabalha na fábrica e a mãe é doméstica? Descabido é você dizer “quero que eles tenham as mesmas oportunidades que eu” e achar que passar no vestibular (entre outras coisas) é apenas uma questão de mérito.
Apesar de ser injusto, o vestibular ainda é, infelizmente, o modo mais justo de se determinar quem vai entrar ou não numa universidade. É possível (embora mais difícil) para alguém egresso de escolas públicas conseguir entrar em uma boa universidade, em um bom curso. E não são raros os casos. Agora, dizer que as cotas tornam o vestibular mais justo é ignorância ou mau-caratismo. Não se pode tentar tornar as coisas mais justas através de injustiças, você não pode tornar as coisas iguais através de desigualdades.

”Não posso concordar que o povo-símbolo do lugar que eu vivo seja miserável (...) Quero que a nossa imagem seja o que de melhor existe aqui: nossas praias, florestas, rios, montanhas e belezas que não existem em nenhum outro lugar do mundo.” Quanto a este parágrafo, pois se você quer que não seja assim, faça alguma coisa para isso mudar e não tente camuflar com modelos de sociedade. A pobreza aqui existe e pode ser que no Brasil o nativo não seja a maioria (pois a maioria morreu), mas em muitos países, como a Bolívia, este povo é grande maioria e são eles que impõem a grande parte dos trabalhadores. Este teu discurso de querer que o país tenha a imagem de um povo que dá certo, é o mesmo discurso da Ditadura, pense nisso!
Qual o problema de eu querer que a imagem que o meu país tenha não seja a de um povo derrotado, miserável e ignorante?  Se esse é o discurso da Ditadura, então é um dos poucos (talvez único) pontos em que ela acertou. E eu não concordo, em absoluto, com os métodos da ditadura - de qualquer ditadura, da brasileira, do nazismo, do fascismo, da ditadura dos irmãos Fidel, da chinesa ou da ditadura (sim!) do Chavez. Nenhuma delas tem um pingo da minha simpatia.

Quanto a “se orgulhar de seus erros”, não entendi. Me mostre onde isto acontece? Quem se orgulha de sermos uma nação subdesenvolvida, explorada, com grande disparidade social?
Não precisa ir muito longe, não. Basta mostrar o orgulho em que militantes da esquerda em geral olham o "povo sofrido"do nordeste. E do orgulho que o nosso (infelizmente) presidente tem de não ter estudo, por exemplo. E não me venha dizer que ele não teve oportunidade. Ele não teve quando criança, quando estava na idade escolar, infelizemente. Mas teve - e muita - enquanto era um candidato profissional à presidência. E nada fez.

Bom, não é tudo, mas pelo menos por enquanto é isso. Tenho consciência de que não é o suficiente para você entender o outro lado da história, mas qualquer coisa eu gosto de um debate. 
Como "não é o suficiente pra você entender o outro lado da história"? Eu entendo. E não concordo com ele. Simples assim.

3 comentários:

  1. A gente pode continuar a conversa, outra hora. Mas agora voc~e colocou sua posição mais explicidamente do que no texto anterior e te compreendo melhor. Mas respondendo a ultima frase sua. Não, você não entende!

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  2. Como eu já disse, tenho preguiça de debates e não sou capaz de sustentar argumentos como vocês.

    Entretanto, gostaria de ratificar o "orgulho em que militantes da esquerda em geral olham o 'povo sofrido' do nordeste" com um exemplo: em março, quando comecei minha vida de estudante de HUMANAS, tive alguns dias de recepção, sendo que o ponto alto foi a noite do maracatu. O detalhe é que estudo na UFPR, que fica, OH, no Paraná. Não entendo por que, estando no Paraná, ocorre essa supervalorização da cultura nordestina (e não foi só desta vez, enquanto eu estudava Farmácia também vivia tendo forró). Não adianta dizer que é para "divulgar a cultura" ou "mostrar a diversidade do país": a mim, parece mais importante - quiçá, urgente - divulgar a cultura PARANAENSE. A grande maioria dos paranaenses sabe o que é maracatu, forró e frevo, mas nunca ouviu falar em "fandango" ou, então, que o sudoeste do PR mais parece um pedaço perdido do RS, onde as pessoas andam de lenço, chapéu e bombacha. Aí, o que acontece na própria Universidade Federal DO PARANÁ? A divulgação, a valorização, o enaltecimento da uma cultura que, definitivamente, não me representa, nem representa meus colegas, no geral. E isso acontece simplesmente porque, hoje, é mais "bonito", "ético" e "correto" valorizar o que vem do Nordeste, como forma, talvez, de "compensar" as dificuldades da região.

    Se realmente fosse uma questão de diversidade, teríamos noites de viola caipira, rodeio paulista, rodeio gaúcho, funk, cavalhadas, ciranda, vanerão e por aí vai.

    Sei que disvirtuei total, mas, enfim, era pra dizer que, culturalmente, somos mais escolados em Nordeste, porque está na moda, do que na própria região. Da mesma forma que está na moda viajar *sem lenço e sem documento* para conhecer a pobreza dos países vizinhos quando, conforme o Gustavo já disse, talvez fosse mais profícuo conhecer E se revoltar com as dificuldades das casas, ruas e bairros vizinhos.

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  3. eu acho q "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa" (Luxemburgo, Vanderlei)

    lol

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