terça-feira, 7 de abril de 2009

Fim de Caso

Uma das coisas que as pessoas têm mais dificuldade de fazer é terminar um relacionamento. Qualquer tipo de relacionamento, não importa a duração que este teve. Namoros mais longos, por exemplo, têm aquele processo todo de deteorização, em que um vai se enchendo do outro gradativamente, os dois começam a se tratar mal e daí para começar a brigar a cada 15 minutos é um pulo. Mas os dois insistem: um namoro de tanto tempo não pode estar acabando e não querem terminar. Até que, depois de um bom tempo com um relacionamento que mais cansa do que dá prazer, finalmente alguém tem coragem de terminar.
Mas eu não queria falar sobre relacionamentos mais sérios, namoros de anos e coisa e tal. Eu queria falar daqueles relacionamentos pequenos, curtos, quase sem importância. Daqueles casos (talvez casinhos) que todos temos de vez em quando e que começam e acabam rapidamente e, geralmente, sem dor pra nenhum dos dois. E mesmo esses relacionamentos sem importância, as pessoas têm uma dificuldade terrível para terminar. E é sempre mais ou menos do mesmo jeito. Aliás, de dois jeitos possíveis.
Um deles - o mais rápido e, por isso, mais indolor (na minha opinião) - é a pessoa que não quer mais nada com a outra simplesmente sumir. Desaparecer, evaporar, dizer que vai cagar e ir embora. Nunca mais atender o telefone (agora que os celulares têm identificadores de chamada, isso se tornou muito mais fácil), não responder os milhares de e-mails, SMS e scraps que a outra pessoa manda. Até a outra pessoa se ligar que o outro não quer mais nada com ela. E quando isso acontece, vai em busca de outra pessoa. Simples assim. 
A outra forma é a mais difícil, mais complicada, mais desgastante, e com maior chance de ser, mesmo sem a pessoa querer, cruel. E é, lógico, a forma que quase todo mundo quase sempre escolhe - afinal, pra que simplificar se dá pra complicar? E essa forma de terminar o caso tem três passos básicos, que sempre se repetem.
Primeiro, a pessoa que não quer mais nada com a outra, de repente, se torna a pessoa mais ocupada da face da terra. Qualquer convite feito pelo outro recebe respostas como "ah, eu preciso estudar hoje, tem um prova dificílima mês que vem", "hoje é aniversário do cachorro da vizinha da prima da colega de trabalho da minha irmã, não vai dar" ou "eu trabalhei demais hoje, estou cansado(a)", que sempre são completados - por falta de coragem ou uma piedade cruel - com um "deixa pra próxima" ou "amanhã a gente se vê". Se a outra pessoa tiver um senso de auto-conservação que as pessoas nunca têm, ela desencana e parte pra próxima. Mas, otrários que somos, insistimos. Até que o alvo dos convites chega no segundo estágio.
Um dia, então, a pessoa aceita o convite para sair. E quem convidou, feliz da vida, achando que agora tudo vai dar certo e acreditando - ingênuo - nas histórias das provas ou do trabalho, e tem certeza de que nunca foi por falta de vontade do outro. Mas naquele encontro, o outro está frio, distante, calado. Mal responde o que lhe é perguntado. Até que, geralmente no final da noite, solta aquela frase terrível: "a gente tem que conversar".
Pronto. A partir daí, a conversa segue um padrão, que pode ser dividido, de novo, em três partes. A primeira, a pessoa começa elogiando o outro. Diz que gosta muito da pessoa, que ela é divertida, legal, simpática, cheirosa, e que aquele dente faltando dá um charme no sorriso dela. Diz, até, que a outra pessoa seria o(a) namorado(a) perfeito(a) para qualquer um. E aí começa o estágio dois da conversa. Apesar do outro ser um potencial namorado perfeito, não o é para ele. E usa uma daquelas expressões batidas, dizendo que "faltou algo", "faltou aquela conexão entre os dois", "não deu liga" ou "não teve química entre os dois". Esta última expressão, aliás, que pode dar um golpe de misericórdia em qualquer sentimento se você, como eu, fizer ou tiver feito faculdade de química. A pessoa vai, na esperança de ser ligeiramente engraçado e para tentar diminuir o clima ruim do momento, te dizer algo como "você mais do que ninguém deveria entender isso, né. Afinal, você faz química. E sabe que quando não tem química, não tem como dar certo". E você sente uma vontade enorme de se adiantar à pessoa e terminar com ela naquele instante. Afinal, ela merecia. Ou merecia que você se rachasse de rir da cara dela, expondo o ridículo da frase. Mas, muito educado que é, engole tudo isso e deixa ela continuar.
O estágio três da conversa é, talvez, o pior de todos. O mais cruel e mais falso. A pessoa sempre fala que gosta muito do outro, mas como amigo. E que não quer que isso que aconteceu entre os dois mude de alguma forma a amizade que existe. E o outro sempre promete que vai ficar tudo bem, que nada disso vai ter qualquer influência na amizade que vai se seguir àquele fora. Mentira: na quase totalidade dos casos, os dois nunca mais vão se falar. A não ser quando aquele que levou o fora estiver namorando alguém muito mais bonito. Então ele vai ter uma obrigação moral de esfregar isso na cara do outro, fazendo questão de deixar bem claro que está muito melhor agora do que quando os dois estavam juntos.

E tudo isso poderia ser evitado com uma frase simples como: "olha, foi legal até aqui mas eu não quero mais. Boa sorte na sua vida daqui pra frente. Até."

2 comentários:

  1. E tem aquelas vezes raras que acaba o relacionamento e a amizade não muda, ou muda e fica melhor até. (:

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  2. Rolou uma identificação. Sugiro mudar o título do post para "Raquel". Obrigada. De qualquer forma, torna tudo mais... humano e normal.

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